O COMANDANTE QUE GOSTAVA DE CARMINA
BURANA
Eu estava de visita ao veleiro. A hora de fecho de visita já
tinha terminado, embora teimosamente recusasse a abandonar aquele mar de leite
em que o navio imóvel ao balanço das ondas, parecia adormecido. Só dei conta que
estava alguém ao meu lado ao ser interrompido nas minhas divagações.
- Estão pregando aos peixinhos…? Disse-me do alto dos seus
quase dois metros de estatura. Reconheci que o comandante estava inspirado e,
rematei de imediato.
- Só Santo António tinha esse dom… - respondi! Mas por vezes
os peixes ouvem-nos e compreendem-nos melhor do que entre os humanos.
Após uma ligeira troca de palavras, a sua curiosidade
adensava-se e não resisti ao convite para descer ao salão. Lá dentro, sentada
num cadeirão estava a sua mulher que me foi apresentada. Continuava imóvel e só
o som da aparelhagem me devolveu à realidade.
Ouvia Carmina Burana, com o volume estremecendo o cavername
da nave. Só quando o CD chegou ao fim e após os aplausos do público que parecia
mesmo ali ao lado num qualquer camarote do Scala, me dirigiu a palavra. Então
gosta de Carmina Burana? Confesso que ia dizer-lhe que preferia Nabucco e o
coro dos escravos, de Verdi. Mas contive-me! O comandante esse andava radiante
e como que hipnotizado, lançava no ar de novo o recomeço do disco tentando
acompanhar as vozes que saiam das colunas. Fiquei sem me mexer, sentado,
ouvindo Carmina Burana até ao fim. Sem pestanejar, sem bocejar, sem conseguir
pregar aos peixinhos.



