terça-feira, 25 de agosto de 2015

O COMANDANTE QUE GOSTAVA DE CARMINA BURANA

O COMANDANTE QUE GOSTAVA DE CARMINA BURANA


Eu estava de visita ao veleiro. A hora de fecho de visita já tinha terminado, embora teimosamente recusasse a abandonar aquele mar de leite em que o navio imóvel ao balanço das ondas, parecia adormecido. Só dei conta que estava alguém ao meu lado ao ser interrompido nas minhas divagações.
- Estão pregando aos peixinhos…? Disse-me do alto dos seus quase dois metros de estatura. Reconheci que o comandante estava inspirado e, rematei de imediato.
- Só Santo António tinha esse dom… - respondi! Mas por vezes os peixes ouvem-nos e compreendem-nos melhor do que entre os humanos.
Após uma ligeira troca de palavras, a sua curiosidade adensava-se e não resisti ao convite para descer ao salão. Lá dentro, sentada num cadeirão estava a sua mulher que me foi apresentada. Continuava imóvel e só o som da aparelhagem me devolveu à realidade.
Ouvia Carmina Burana, com o volume estremecendo o cavername da nave. Só quando o CD chegou ao fim e após os aplausos do público que parecia mesmo ali ao lado num qualquer camarote do Scala, me dirigiu a palavra. Então gosta de Carmina Burana? Confesso que ia dizer-lhe que preferia Nabucco e o coro dos escravos, de Verdi. Mas contive-me! O comandante esse andava radiante e como que hipnotizado, lançava no ar de novo o recomeço do disco tentando acompanhar as vozes que saiam das colunas. Fiquei sem me mexer, sentado, ouvindo Carmina Burana até ao fim. Sem pestanejar, sem bocejar, sem conseguir pregar aos peixinhos.            



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