terça-feira, 18 de dezembro de 2012

UM NAVIO TEM ALMA

Eis a alma de um navio a chegar à Pontinha. Como a Nau Catrineta tem tanto para contar...
Foto Perestrellos




Por vezes, falo de navios como se fossem gente. Cada um carrega uma história no seu dorso, cada um conta histórias diferentes, divertidas e tristes como as histórias das pessoas.

Lembro-me da infância, do descobrir das primeiras letras, de ler os reclamos nas ruas, do prazer de desvendar os mistérios da junção das palavras que constituíam as frases ou ideias. Que felicidade descobrir a Nau Catrineta, histórias de crianças nos mistérios de Enid Blyton, aventuras sem fim… e aqueles momentos de suspense nos livros de Verne, de navegar pelo mundo e descobrir tesouros de piratas, contados pelos mais velhos aos serões. Caminhando pelas ruas, imaginávamos ali perto de nós o Capitão Kid, e o medo de invasões de povos do Magrebe, de assaltos a igrejas e fugas do povo para os seus refúgios no Curral, histórias de submarinos prontos a bombardear a cidade pela calada da noite.

Mais tarde, descobri o gosto, o prazer de navegar em alguns dos últimos grandes paquetes da marinha nacional. Fiquei apaixonado pela vida de Cousteau, pela sua luta, respeito pelo mar e pela natureza. Depois, nova paixão quando desvendei viagens no navio Funchal. A bordo conheci amigos quase todos desaparecidos, Maria, a responsável pela sala de refeições das crianças. Desvendei o caminho marítimo para a cozinha do navio, e meu Deus quantos bolos empanturrados à força, quantos sumos e quantos pacotes de caramelos “made in Canárias”, nas travessas de Francisco, o camaroteiro incumbido e responsável pela minha pessoa. De quantas partidas e chegadas, quantas lágrimas nos olhos, quantos sorrisos, noites mal dormidas e o descobrir pela manhã das primeiras ilhotas do Porto Santo? Os seus nomes, a sombra ao longe o negrume no horizonte da ilha mágica da Madeira. Fiquei a pensar, afinal os navios têm alma!

Depois, por acaso já sentiram aquele nó apertado de quando o navio, dobra o Cabo Garajau e se transforma em felicidade a própria cidade do Funchal? Eu vivi vezes sem conta a magia de um apito do navio ecoando na baía, aquele eco que pelas rochosas montanhas chamavam lenços brancos a acenar; tanto sofrimento nos corações dos que partiam e dos que ficavam cativos, aprisionados ao seu destino de insulares. E de todos os soldados que encavalitados nos paus de carga, se despediam nos olhos molhados das namoradas, de pais desesperados rezando, promessas à Senhora do Monte ou à padroeira da pequena aldeia onde viviam; as serpentinas lançadas dos decks em dias festivos, as luzes que iluminando o navio, se destacavam pela noite, a azul ultramarino por baixo da chaminé a magia de FUNCHAL.

Ali dei os primeiros passos, no convés debruçado na bruma do oceano, passava horas e horas a ver a espuma bater no costado e se desfazer em riscos brancos no imenso mar. As noites que passei a vê-lo sair e desaparecer no horizonte, até à última réstia de luz, e as queijadas e laranjadas comidas e bebidas à pressa na esplanada da Minas Gerais, por que o navio acabava de aparecer no horizonte e tínhamos a apanhar um táxi. Ou quando batia à porta um funcionário com o telegrama da Radio Marconi, numa motorizada!

É isto que faz a alma de um navio, é isto que me faz sentir triste no atual momento em que se acha que o melhor é enviá-lo para a sucata como se fosse um simples navio sem história, sem passado e sem presente.

Aquele nó na garganta continua , continua sem fim  e sem ninguém dar por isso!………..

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